Essa narrativa que vou contar não é inédita. Talvez você já tenha ouvido outros contarem, mas cada um tem seu olhar, seus detalhes, seu ponto de vista.
 
Houve um tempo, numa região chamada simplesmente de Nordeste, em que havia uma espécie de recenseamento das crianças que nasciam. Quando era mulher, mandavam para a cidade grande para trabalhar de escravas domésticas ou prostitutas; quando era homem, era condenado a ficar ali e tentar se livrar do destino ou morrer de fome.
Eis que um menino, graças a coragem de sua mãe, conseguiu escapar daquele recenseamento (que todos acreditavam ser obra da natureza, mas muito tempo depois foram descobrir que era uma consequência da cerca). ELE, sua mãe e seus irmãos conseguiram escapar da morte e foram morar num povoado distante, onde depois encontraram muitos de seus parentes e pessoas que também escaparam daquele recenseamento. Nesse lugar, ELE aprendeu uma profissão: a de torneiro mecânico.
Passado o tempo, esse simples torneiro mecânico foi crescendo e vendo que ali também haviam injustiças, miséria e fome. ELE então começou a participar de algumas bodas, ouvir as pessoas falar, foi aprendendo e aos poucos começou a dar seus primeiros ensinamentos. As pessoas que o ouviam ficavam cheias de luz, percebiam que ELE tinha algo de diferente e ficavam encantadas com a sua pregação, porque ele falava por parábolas, contava histórias reais e falava a mesma língua do povo.
Aos poucos, sua fama foi se espalhando e pessoas de outros lugares o procuravam para conversar, para contar suas história e para ouvir dele alguma ideia do que fazer. Assim, ELE foi se tornando famoso e resolveu fazer um juramento: “Se um dia, o meu Senhor (o povo) me der poderes, eu vou encher de pão a mesa dos famintos, vou cuidar dos doentes, vou erguer aqueles que estão enfermos, quebrados, falidos, vou fazer escolas técnicas, universidades, enfim, vou melhorar a vida das pessoas que mais precisam”.
Com base nesse juramento, saiu ELE a pregar por toda parte. Mais e mais pessoas foram se juntando a ELE e seguindo-o. Pessoas de todas as cores, de todas as línguas, de passado bom ou ruim, ELE não se importava: “Quem tiver olhos para ver e ouvidos para escutar que venha”. Sua fama foi se espalhando e só crescia. Até o dia que o Senhor (o povo) o chamou e disse-lhe: “Chegou a sua hora, eis o momento que se deve cumprir as escrituras; você está preparado?” E ELE, sorridente e feliz viu acontecer aquele momento tão sonhado.
Não foi uma tarefa fácil, muitos o tentaram impedir, muitos obstáculos internos dentro do seu lugar e até líderes de outras nações começaram a ficar com inveja daquilo que ELE apenas começava a fazer. Mas ELE não se intimidou, sempre tratou a todos com muito respeito e buscou se aliar com aqueles povos que estavam numa situação parecida com a sua e, assim, conseguiram melhores vantagens nas suas trocas e mais benefício para as pessoas que mais precisam em qualquer parte do mundo.
Depois de um tempo, com muito suor e sacrifício, na sua terra se cumpriram as escrituras: as pessoas cada dia mais tinham pão e um prato de feijão, arroz e até um bife de carne bovina, seus salários aumentaram, seus filhos foram para a escola e até para as novas universidades, muitos que estavam enfermos, quebrados e falidos se levantaram e passaram a viver melhor. Mas, eis que chegou a hora DELE partir, nem ELE nem ninguém saberia o que aconteceria a partir dali.
ELE simplesmente não quis sair e deixar tudo aquilo voltar para trás. Então chamou uma de suas seguidoras e disse-lhe: “Você vai continuar o meu legado, jamais permita que aqueles que oprimiram esse povo por mais de quinhentos anos voltem a oprimi-lo” e saiu.
Ocorre que um tempo depois a situação no mundo inteiro foi piorando e os grandes mercadores começaram a pressionar seus aliados naquele lugar. Passaram a pagar para os escribas, para divulgar a ideia de que aquele lugar estava passando por uma grave crise e que para sair dela era preciso voltar os antigos dominadores. Os escribas passaram a repetir isso dia após dia e começaram a acusar alguns seguidores DELE, buscando fragilizar sua lideranças e se livrar da SUA raça. Mas os grandes mercadores, vorazes e famintos por voltar a colocar suas garras nas riquezas daquele lugar, chamaram também os doutores da lei e lhes disseram: “Vão, acusem, prendam e condenem todos eles”. Assim, de um lado os escribas, do outro os doutores da lei foram cercando os seguidores DELE e com isso foram crescendo também os fariseus que lhes faziam oposição.
Os grandes e poderosos estavam muito unidos no plano de destrui-LO, até conseguiam vencer algumas batalhas, mas perdiam outras e, então, os poderosos chegaram a seguinte conclusão “sabe as pessoas que mais precisam, essas que ELE ajudou tanto? Sem o apoio deles não conseguiremos destrui-LO”. Alguns dentre os poderosos diziam “mas isso será impossível, as pessoas O adoram, jamais nos seguirão”. Mas os escribas tomaram a frente e disseram: “Se os doutores da lei nos ajudarem, nós faremos com que muitas das pessoas que mais precisam, não todos, mas muitos daqueles que agora já não precisam mais tanto, faremos com que esses O odeie”. E então estava montado o plano e começaram a colocar para funcionar sua máquina diabólica e fazer a cabeça de todos.
Foram fazendo várias tentativas, foram acusando e prendendo, mesmo sem terem provas. Foram comentando e repetindo todos os dias o nome, a foto e as imagens daqueles seguidores, durante meses e anos, sempre a mesma coisa e eis que perceberam que muitos daqueles que um dia mais precisaram DELE agora já estavam se colocando contra. Mas era preciso mais, era necessário colocar ELE no enredo, era preciso envolvê-lo e despertar ainda mais o ódio, a ira e o desejo de sangue, como se tudo não passasse de um teatro romano.
Foram várias tentativas até que um dia pegaram um fariseu que havia se convertido em seguidor DELE, o acusaram e disseram a ELE: “Se você entregá-LO, daremos sua liberdade e treze moedas de ouro”. Eis que o fariseu convertido aceitou acusá-lo e pronto; em breve, ninguém mais o incomodaria.
O passo seguinte seria acusá-lo de muitas coisas, pequenas coisas, não precisava de muita consistência, bastava com que as pessoas que mais precisavam escutassem a palavra “corrupção”. Esse é o gatilho mental que desperta o ódio, a cobiça e a sede de vingança.
Havia passado o carnaval e estava chegado o tempo de páscoa, que naquele lugar de épocas em épocas se preparavam golpes de estado, se faziam grandes manifestações em defesa da tradição, da família e da propriedade. E então essa seria uma boa época para levá-lo aos tribunais. Mas alguns doutores da lei diziam “não encontro nenhum mal nesse homem”. Outros menos experientes partiram afoitos para a ofensiva e o mandaram prender. ELE foi, com dignidade, mas não encontraram nenhum mal. Mesmo assim os escribas continuavam a repetir “corrupção, corrupção, corrupção” e as pessoas que antes mais precisavam foram se inflando, batendo panelas junto com os poderosos e o clima foi ficando mais tenso.
Novamente, também na época de páscoa ou em qualquer período do ano, conforme a tradição daquele lugar, os fariseus costumavam perdoar alguns bandidos. Havia então um dentre os fariseus que ficou muito famoso, que alguns anos atrás havia enriquecido vendendo carne bovina enlatada para a África e desde então havia montado uma quadrilha que desviava dinheiro público e escondia em outros lugares chamados ironicamente de paraísos fiscais. Eis que esse fariseu aumentou sua ambição e decidiu comprar o título de líder dos fariseus. Para isso, usou aquela riqueza que havia acumulado com muitos anos de desvio de dinheiro público, sempre mais e mais, e pagou as campanhas de centenas de outros fariseus, para que estes, depois, votassem nele para ser seu líder. E assim o fizeram. Logo o fariseu tratou de se aliar aos escribas, aos doutores da lei e trouxe também muitos sacerdotes para o seu lado, mas mesmo assim, não conseguiu se esconder, tamanha era sua usura.
Então, como estava chegando a páscoa e havia aquela tradição, eis que os escribas, os fariseus, grande parte dos sacerdotes e os doutores da lei chamaram as pessoas, principalmente aquelas que antes mais precisavam e lhes disseram “Quem vocês querem que libertemos: ELE ou Barrabás”. As pessoas que antes mais precisavam, já cansadas e envenenadas diabolicamente pelos escribas, de quem ouviam a cada segundo do seu dia a palavra “corrupção, corrupção, corrupção” e outros mais graduados diziam: “Estamos passando pela pior crise da nossa história e se não tiraram eles do poder essa crise não vai passar”. Então, eis que aqueles que antes mais precisavam foram às ruas e começaram a gritar: “Soltem Barrabás, crucifiquem ELE”.
Mas como, depois de tudo o que ele fez por vocês? E as pessoas que antes mais precisavam, junto com os poderosos repetiam cada vez mais alto “Crucifiquem-no, crucifiquem-no, crucifiquem-no. Soltem Barrabás”.
Vendo isso, ELE chamou os seus discípulos, partiu mais uma vez o pão, lavou os seus pés e repetiu-lhes os ensinamentos: “Vejo que minha hora está chegando, mas eu vou lutar até o fim, porém, sem violência, apenas usando aquilo que nos trouxe até aqui, as ideias e a nossa voz. Vamos continuar firmes, sem esmorecer. Aconteça o que acontecer, nossa luta vai continuar.” E repetiu: “A Luta Continua, Companheiros. Se necessário for, começaremos tudo de novo, passo a passo, mas a opressão não poderá voltar a reinar nesse lugar. Sei que a tarefa é difícil como sempre foi, mas não vamos esmorecer.” E assim ELE se retirou, foi ficar um pouco mais junto de sua família e amigos mais próximos, que ELE deixou tantas vezes para lutar por aqueles que mais precisavam. Mas agora, tanto sua família como seus amigos também eram achincalhados e perseguidos.
Assim, está chegando o tempo de páscoa. Ainda não se sabe exatamente o que vai acontecer nos próximos dias, mas pelo clima instalado, pela carga de ódio que foi semeado no coração, especialmente daquelas pessoas que antes mais precisavam, não se espera coisas boas. Diante disso, o mais importante é ficar firmes no compromisso e aconteça o que acontecer repetir sempre: A LUTA CONTINUA, COMPANHEIROS.
Obs.:
Este texto você pode reproduzir sem citar o autor, trata-se de uma história de domínio público, apenas humildemente interpretada por José Roberto Paludo.
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